"Acima de tudo, a verdade"... Tá. Nossa condição desprovida da aptidão telepática é então uma falha biológica satânica terrível. Ou no mínimo, um traço aleatório da espécie, sem a menor relevância para a viabilidade da vida em sociedade. Nossa incompetência natural e óbvia em sondar nosso âmago pantanoso, também é só detalhe. Muitas vezes nem eu própria sou capaz de entender o que caminha por esses meandros aqui de dentro. Mas eu não posso faltar com a verdade, porque isso é falta de ética e de caráter.
Por muito tempo acreditei solidamente que, numa relação afetiva, se tudo segue de vento em popa, tudo mesmo, não há espaço para que terceiros adentrem o ninho. Não que eu tenha deixado de acreditar nisso. Ainda vejo muito sentido na tese. Só me esqueci que porra de princípio ou regra nenhuma, por mais coerente que seja, dá conta de tudo, da verdade que quase ninguém parece querer encarar: a de que coisas acontecem, diante de nossa cômica impotência. O movimento de tudo, de toda a imensidão dinâmica insondável caga forte e sai saltitando para aquilo que queremos, que pretendemos prever ou explicar. Sim, temos uma margem de ação. Bem mais estreita do que se imagina, mas temos. E é contraproducente considerar isso no momento de correr atrás de algo. A objetividade e o foco é o que devem guiar a tarefa de realizar um plano; conhecido mais ou menos o caminho, pé na estrada. E pronto. Da mesma forma que é desnecessário despender tempo pensando que a coisa pode não dar certo, esse negócio de pensamento positivo também é foda de engolir. Olha, faço aqui uma confissão pública, por isso um tanto solene: isso sempre me irritou; sempre achei cretino. "Pensa positivo, que dá certo." "Deu tudo certo por causa de minha positividade". E é quase automático ser taxada como uma pessoa negativa, quando esboço uma crítica a isso. O que eu diria é: Não pense negativo. Nem positivo! Não pense! Só vai, meu filho! Vai! Quando o assunto é doença, é fácil dizer "morreu porque foi negativo", ou "me curei pelo pensamento positivo". Difícil é se perguntar se a pessoa enferma que não obteve a cura estava realmente a fim de continuar vivendo. Fico puta com esse valor incondicionalmente positivo que se dá a vida. As coisas simplesmente são.
Perdão pela digressão, é que o troço foi irrompendo, quando vi, já tava tudo escrito. Voltemos ao tema. Acho engraçado essa necessidade de alguns de desvendar "a verdade" sobre o parceiro, arrombando a porta daquilo que ele não lhe mostra. Refiro-me a essa atitude que muita gente acha legítima de espionar o parceiro pra averiguar se há um terceiro elemento rondando a área, e assim descobrir "a verdade" sobre o real caráter daquele com quem você está envolvido. Talvez fique aqui descarado meu envolvimento com a questão, a ponto de você, leitor, poder inferir facilmente que o que faço aqui, mais do que uma crítica, é um depoimento. Que assim seja, um desabafo sofisticadinho, um chororô intelectualizado, já não ligo. Só vou continuar lutando pra não descambar pra uma narração dos fatos, por uma questão de discrição.
Olha, se você vive uma relação em que não percebe absolutamente nada de anormal ou diferente, nem no comportamento, nem no sentimento do parceiro, nem na rotina que vivem juntos (esta condicional é fundamental!), e mesmo assim você tem a necessidade de checar sorrateiramente se tudo anda conforme o que você espera, pretende e idealiza, acho isso primeiramente burro; segundamente, é escroto, invasivo, criminoso, etc, o que também é muito grave. Mas acima de tudo, burro; porque você esculpiu sua paranóia e não pode mais destruí-la sem expor a cagada que fez (ter invadido a privacidade alheia), muito menos expurgá-la da cabeça sozinho. O que me deixa maluca é a cabeça doente do espião, que acha que se ele descobriu algo que julga comprometedor, isso o redime de sua atitude também moralmente condenável. "Estamos quites"... Engraçado é que, se não tivesse achado porra alguma, tudo ficaria por isso mesmo, e a escrotice de violar correspondência alheia, não seria nada; não proporcionaria a quem espia o mínimo sentimento de culpa. Isso me dá vontade de torturar.
Pois bem, o araponga de uma figa descobriu alguma troca entre seu parceiro e outra pessoa, que explicitava por escrito um interesse mútuo entre eles; nada consumado fisicamente, embora isso pra mim não faça diferença. Mas pra cabeça de quem tenta se apoderar do outro por completo, isso seria o fim da picada.
Agora vamos a uma macroanálise, conectando o argumento à idéia de onde partiu minha digressão anterior. Tudo pode acontecer. A qualquer hora, com qualquer um. Minha grande pergunta é: por que as pessoas agem sempre fazendo vista grossa pra isso? A pergunta é retórica, claro, porque a resposta é simples: "não quero pensar no que não quero que aconteça". Ok. Mas se as pessoas pudessem pelo menos assimilar essa verdade, que fosse de forma genérica, seria mais fácil lidar com isso e não despejar julgamentos morais sobre aquele visto como pivô de seu desgosto, como se alguém que acaba tendo um tipo de envolvimento um pouco mais profundo com um terceiro, estivesse necessariamente agindo com falta de respeito, caráter, consideração, etc, com o parceiro.
Tudo isso pra dizer que correr atrás da "verdade" como um valor moral nos leva a três possíveis destinos: ao sanatório, ao mosteiro (ou convento), ou a relações que não vão muito além do flerte ou da convergência de interesses sexuais, ou casuais. Não existe, numa relação saudável e profunda, um fazer com que o outro diga "a verdade". Existe não ter a necessidade de mentir ou omitir coisas. E isso é algo que se conquista a duras penas. E ainda é provável que no momento em que isso é conquistado, a relação já tenha transcendido pra uma amizade superior, desprovida de paixão e de apego excessivo. Porque enquanto a paixão está presente, sendo algo que nos arranca do eixo facilmente, o melhor jeito de administrar a cabeça é focar no que importa: o sentimento entre as pessoas. Só que a burrice humana não permite que o sentimento fale. Porque o idiota quer mais, quer "a verdade". E não se trata aqui de viver na mentira, sacaneando os outros. Trata-se de, basicamente, duas coisas. Uma delas é aprender a dar relevância ao que realmente importa pra manutenção do bem estar mental. Não quero saber se no plano da individualidade de meu parceiro algo me desagrada. É uma questão de praticidade, estratégia gerencial das caraminholas. Se conheço meu próprio valor, se eu sei e sinto que seu sentimento é verdadeiro, e que não há nenhum tipo de interferência no que vivemos, não quero, e acima de tudo não preciso saber disso. E cavucar pra descobrir "a verdade", ainda mais de modo sorrateiro, só serviria pra mandar tudo pelos ares, sufocando e matando o que há de mais importante, o sentimento. A outra coisa, não menos importante, é entender que, ao redor de cada um existe uma zona chamada individualidade, um limite que não se deve pretender transpor. "A alma do outro é uma floresta escura" (Rilke). E a nossa, até para nós mesmos, também pode ser bem escura. Invadir essa zona é criar a necessidade estúpida e perniciosa de explicações para o que não se explica. E mesmo que se explicasse, sofreríamos com a traiçoeira tentativa de acochambrar sentimentos em palavras, pra em seguida despencar pra um diálogo de surdos. Aí vem o Pirandello pra descrever magistralmente como isso se procede:
Eu e você usámos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, meu caro. Ao dizê-las a mim, você preenche-as com o seu sentido; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pensámos que nos entendíamos; de facto, não nos entendemos.
Essa mesquinharia humana me deprime ainda mais quando penso no quão pequeninos somos diante do movimento das coisas. Um dia, de repente, alguém morre. Aí, o idiota pensa: "e eu ligando pra essas merdas..." E esse pensamento provavelmente só dura até sair do cemitério e retornar ao entorpecimento do cotidiano e do ego. Depois a doida sou eu... é o caralho, mesmo...!